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As tentações do Poder

“O poder é contagioso?”, indagou o repórter de um jornal de São Paulo ao General Geisel, quando este ocupava a presidência da República. O carro partiu sem que houvesse resposta. Mas seu sucessor, o general Figueiredo, não temeu reconhecer que o “demônio que assedia o poder é pródigo em tentações”. Lord Acton foi mais incisivo. Declarou que ” todo poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”

É injusto qualificar de corruptos todos que dispõem de uma parcela de poder. Mas não há dúvida de que o poder transtorna, em qualquer escala; chefes gerentes, diretores, dirigentes sindicais, políticos ou bispos. São Paulo diria que ele atiça a concupiscência. Torna a pessoa apegada aos prazeres e facilidades oferecidas a quem ocupa posição de destaque.

Para muitos, o poder é a suprema ambição. É a perversa maneira de se comparar a Deus. Haja vista os políticos que gastam somas bilionárias em campanhas eleitorais e, mesmo derrotados, voltam à cena, como se a sede de poder fosse proporcional à fortunas que dilapidam.

Há homens que, fora do poder, sentem-se terrivelmente humilhados, expulsos do Olimpo dos deuses. Caem em depressão e, passada a ressaca, voltam à disputa pelo espaço de poder com mais garra e menos escrúpulos.

Mau grado as intenções, a vida se tece em ações. E a cabeça pensa onde os pés pisam. Pouco vale as intenções de quem jura que “chegando lá não serei como os outros”. Será sim, salvo honrosas e heróicas exceções, como Francisco de Assis, Gandhi e Israel Pinheiro, que ousaram submeter seu modo de viver ao modo de pensar. Tinham princípios.

Em geral, dá-se o inverso. Modificada a maneira de viver de quem ocupa o poder político, em pouco tempo altera-se também a de pensar. Pois o poder faz girar a roda da fortuna e opera na pessoa uma mudança de lugar social e cultural. Ela se vê cercadas de bajuladores, recebe convites e homenagens, ganha presentes, dispõe de assessores e, sobretudo, passa a dispor de uma infra estrutura que a reveste de uma aura, especial. Troca de guarda roupa, de casa, de amigos, e de mulheres ou maridos.

Aos olhos do comum dos mortais, aquelas autoridades, sejam presidente da república, senador, deputados, vereadores e prefeitos, acham que possuem as chaves da felicidade alheias

Tem o poder de aprovar projetos, liberar verbas, autorizar obras, permitir viagens, distribuir cargos, promover pessoas, conceder bolsas, e transformar seus gestos em fatos políticos.

Como é difícil, a quem já experimentou o poder, voltar a ser o que era! Vargas preferiu meter uma bala no coração a ver-se destituído de poder.

Este reduz a distância entre o desejável e o possível. Quanto maior o poder, menor essa distância. Um governador, ou ministro, um secretário ou prefeito, pode, no mesmo dia, graças a função que ocupa, e à custa do contribuinte , almoçar em Brasília, jantar em São Paulo e dormir no Rio, convencido de que suas conversas e conchavos direcionam o rumo da história…

Quem se apega ao poder mira-se, todas as manhãs, no espelho da bruxa da Branca de Neve e não suporta críticas, pois minam sua auto imagem e exibem suas contradições aos olhos de outrem.

Daí porque se isola, fecha-se num círculo hermético ao qual só têm acesso os que cumprem suas ordens, dizem “amém” às suas idéias e palavras ou, ainda que críticos, calam-se coniventes, pois, tendo também suas ambições, não querem ser rifados por quem possui mais poder.

Assim, cria-se uma cumplicidade tácita. Temem apenas que certa imprensa saiba que acorre nos bastidores do poder. No entanto, agem como se copeiros, garçons, motoristas, seguranças faxineiros e empregados não tivessem olhos, cabeças, ouvidos, bocas, parentes, vizinhos e amigos…

Tudo se agrava, porém, quando o poder institucional vincula-se ao poder marginal, e deputados, senadores, governadores, ministros, prefeitos e vereadores locupletam-se com arapongas, bicheiros, traficantes, torturadores, agiotas, fiéis ao adágio de que ” é dando que se recebe”.

Então, as duas últimas letras trocam de lugar, e o poder fica podre.

 

João Bertolaccini – Borda da Mata

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