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Entre erros e acertos

Dia após dia, somos surpreendidos por situações que entram em desacordo com a moral e os bons costumes. Topamos com pessoas que agem com engano, pessoas que furtam a nossa vez de falar e aparecer, pessoas que impulsivamente reagem contra qualquer gesto sem maiores intenções de nossa parte, pessoas que tornam nosso dia a dia mais cansativo e, não raras as vezes, pessoas que acabam com a nossa energia de propor novidades, de agir com bondade.

São várias as situações pelas quais nos vemos envolvidos com outras pessoas, com gente como nós, com alguém que, diferentemente do que podemos imaginar, é consequência de ações ocorridas entre nós mesmos, de ações coletivas.

É isso mesmo. Entre as ações que as outras pessoas fazem, as quais podem nos causar dissabores e noites sem dormir direito, há a ação do coletivo, de outras pessoas que, de um modo ou de outro, colaboraram para que uma pessoa hoje seja tal como ela é.

Não vamos nos culpar pelos erros cometidos pelos outros, mas isso não pode nos deixar imunes a momentos de reflexão, de modo a entender e a pelo menos tentar corrigir algumas falhas que podem causar as mais diferentes situações desconcertantes hoje em dia.

Nós, como professores, por exemplo, vimos muitas vezes alunos que, por não suportarem mais algumas aulas e por julgarem ter algo mais importante a fazer, saíram da sala de aula e ocuparam-se em outras atividades. As pessoas que hoje fazem parte da imensa população carcerária, por exemplo, de algum modo já desempenharam os papéis de filhos, pais, sobrinhos, netos, vizinhos, colegas, conhecidos e, inclusive, alunos.

Já estiveram conosco, já passaram por nós, já fizeram e ainda fazem parte da história do nosso país, da nossa cidade, do bairro em que estamos morando. No caso, não dá para ignorar a ação do coletivo, a ação que existe mesmo quando não fazemos nada, dado que o não fazer, o não querer ver, o isolamento, assim como o foco em nosso ego, também são formas amargas de ações sobre o outro, de ações coletivas.

Cada pessoa que age de um modo que não nos agrada e cada pessoa que faz o nosso dia mais trabalhoso e cansativo são uma forma de resultado de ações que ocorreram com elas em algum momento de sua vida. Somos também o resultado das nossas vivências, daquilo que quisemos ter e que nos foi negado, somos resultado da ação de um adulto que, ao ver alguém com maiores necessidades, não deu a atenção que esse alguém precisou naquele momento.

Enquanto estamos focados em nossos assuntos, no bem-estar apenas de nossos filhos e de nossa família, enquanto estamos embaraçados com assuntos referentes ao nosso próprio bem, a vida continua o seu curso natural, sendo empurrada para as próximas gerações.

É fácil notar a despreocupação de muitos de nós com assuntos que não nos dizem respeito num primeiro momento. É mais fácil ainda notar como muitos de nós somos tendenciosos para apontar o erro cometido pelo outro. Inclusive, apontamos tanto as falhas do outro que parece que estamos, de alguma forma, imunes ao erro, ao exagero, a rir de piadas que não têm a menor graça para quem as vive.

Assim, a vida vai seguindo sem maiores preocupações, sem ter entre nós pessoas que assumam a responsabilidade pelo coletivo. Um aluno que hoje é expulso da sala de aula devido à indisciplina, um filho que vê seu pai olhar em direção contrária àquele que pede ajuda no semáforo, uma criança que olha para a felicidade de outra que acaba de ganhar um brinquedo que ela acha que nunca conseguirá ter ou até mesmo um irmão mais velho que vê o caçula ser defendido a todo custo como se fosse um bebê são ações do coletivo, não estão armazenando sentimentos isoladamente.

É hora de assumirmos nossa responsabilidade não apenas com aqueles que estão dentro de nossas casas, mas também com todas as demais pessoas com quem conseguirmos agir efetiva e beneficamente, pois as pessoas que passam todos os dias por nós não são figurantes, dado que dia a dia nos vemos envolvidos direta ou indiretamente com atores que podem tornar-se protagonistas e antagonistas, impactando a nossa vida e a de tantas outras pessoas.

Não estamos sozinhos, somos o resultado do coletivo e, com a mesma intensidade com que as ações desajustadas ocorridas em conjunto ajudam a construir os erros de alguém, podemos ter a confiança de que ainda há tempo para construir pontes firmes para o livre fluxo do bem na vida de outras pessoas.

 

 

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